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 O Zero e o Espaço

ArtigoRoberto Moraes Enviou "
Artigo do Companheiro
Sérgio Roxo da Fonseca
RC Ribeirão Preto - SP
É muito difícil compreender o enorme progresso ocorrido com o aparecimento do zero e o das letras minúsculas. No passado greco-romano nem havia o zero, nem as letras minúsculas, nem o ponto, nem a vírgula e nem os espaços entre palavras. Ou quando existiam, não conseguiam atrair a atenção dos teóricos.
A complicada numeração romana não previa o zero. Se zero representa o nada não tem sentido criar o zero, diziam. Hoje sabemos que tudo que é do homem pode ser simbolizado, até o vazio e até o nada. Sem o zero não seria possível adotar o sistema decimal e nem o binário.

No mesmo sentido, os textos antigos demonstram a inexistência das letras minúsculas, do ponto e da vírgula. Os textos gravados nas paredes das antigas igrejas do Europa, quase sempre, são escritos em maiúsculas. Não há espaço entre as palavras. Nem ponto e nem vírgula. Não havia assim sinal do início ou do fim das frases. Digamos assim, tudo embaralhado.

Borges afirma ter lido em Santo Agostinho o registro de sua surpresa ao encontrar Santo Ambrósio lendo em voz baixa. Até então todos liam em voz alta para compreender o texto sem pontuação. Concluiu Borges que Santo Agostinho estava inaugurando, com a sua leitura silenciosa, o aparecimento do ponto e da vírgula. Os homens e as mulheres eram analfabetos. Quase todos. Quem lia, lia em voz alta. Santo Agostinho viveu entre 354 a 430.

Os árabes tomaram conhecimento do zero após invadir a Índia, onde era conhecido pela palavra “zéfiro”, ou seja, “brisa branda”. Não somente eles, mas eles principalmente, ajudaram a substituir os algarismos romanos pelos arábicos, tal como o nome diz. O avanço foi nítido. Podemos imaginar como era grande a dificuldade encontrada pelos antigos ao multiplicar, por exemplo, 435 por 320 em algarismos romanos, sem o zero! Talvez por isso mesmo que os árabes avançaram muito mais no conhecimento matemático do que os europeus daquela época. Logo após Maomé, os árabes tomaram o norte da África e um bom pedaço do sul da Europa, onde fincaram raízes por longo tempo. Na península ibérica – antes de existir Portugal e Espanha – ficaram quase oito séculos. Com eles vieram o “zero” da Índia e os algarismos arábicos, também de origem oriental.

E as minúsculas e as maiúsculas? Quando encontramos inscrições nas paredes das antigas igrejas européias, seus textos não contemplam nem o zero, nem os arábicos, nem a vírgula e nem as minúsculas. Quase sempre em latim que invariavelmente usa a ordem inversa. Difícil de entender como, por exemplo: “PATERISESTQUEMJUSTAENUPCIAEDEMONSTRANT”, ou, já modernizado “pater is est quem justae nupciae demonstrant”. As “justae nupciae”, que está no final da frase, são o sujeito. E “pater”, o objeto direto. Assim, na nossa linguagem a frase seria assim: o casamento demonstra quem é o pai, ou, pai é o marido da mãe. Às vezes não é, o que se trata do início de outra história. Ou estória?

O historiador Woods Jr., no livro “Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental”, afirma que o abade Fredegiso (834) implantou as “minúsculas carolíngias”. Deu a elas uma função lógica diversa das maiúsculas tradicionais. As maiúsculas passaram a existir principalmente para indicar o início das frases. As minúsculas passaram a residir principalmente no interior da oração. As vírgulas para intercalar proposições. O ponto para finalizar.

Como seria o mundo, se não houvesse o zero, as minúsculas, o ponto, a vírgula e os espaços entre as palavras? Seria muito difícil a sua compreensão. Possivelmente os que viveram antes desses símbolos nem mesmo notaram sua falta. É sempre assim. O passado não tem futuro.

Mas é possível formular outra questão fundada na mesma dogmática. Será que há ainda outro zero, outra letra minúscula, outra vírgula, outro ponto, e até mesmo outro espaço ainda não descobertos pelos homens? Ainda não pressentidos? Quais seriam as funções desses símbolos ainda não revelados pela humanidade? Para que servirão? Com certeza, para esculpir sintaticamente o perfil do homem do futuro para o qual ainda não temos olhos para ver.


Artigo do Companheiro
Sérgio Roxo da Fonseca
RC Ribeirão Preto – SP
Email: roxodafonseca@gmail.com. Blog: http://roxo.adv.br
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